Imagine-se num potente carro esportivo acelerando bem além dos 100 km/h numa pista livre e segura. Altamente sedutor, não é mesmo? Esta sensação é bem explorada nos comerciais e filmes, mas um carro projetado para velocidades superiores a 200 km/h também terá que lidar com o trânsito urbano, semáforos, engarrafamentos, radares e quebra molas. Essa pluralidade faz parte.

É razoável afirmar que o motorista deste carro esportivo tem consciência do potencial do seu carro, mas sabe que a forma de condução terá que ser adequada às circunstâncias. Se dirigir acima da velocidade permitida e um radar irá flagrá-lo, uma multa será aplicada. Se ultrapassar um sinal vermelho, sem olhar na interseção numa via movimentada, chances são de envolver-se em um sério acidente. Se a via estiver engarrafada, não será viável trafegar na calçada, como forma de andar mais rápido. E por que falar do óbvio? Porque enquanto a estória com o carro esportivo não gera dúvidas, por uma embriaguez sobrenatural, não enxergamos as diferenças quando se trata da Venda Direta pelo Marketing de Rede.

Quem de fato compreende o potencial desta atividade, entende que está dirigindo um veículo diferenciado que é potente, ágil e capaz de propiciar fortes emoções. Sabe que seu negócio pode lhe gerar rendimentos expressivos, sem as preocupações de um negócio tradicional. E é claro que, na hora de promover o negócio, soa muito mais sedutor apresentar seu veículo com todo o seu potencial “esportivo”, do que sua função de simples locomoção urbana em cidades cheias de engarrafamentos. Só que esta peculiaridade gera uma anomalia que, há pouco, chamei de embriaguez sobrenatural: a incapacidade de perceber que ele precisa ser conduzido de forma condizente com as circunstâncias.

Vejamos alguns exemplos:

Estando em eventos como casamentos, aniversários, reveillon, batizados ou velórios, seria adequado fazer uma breve apresentação de oportunidade?

As pessoas que estão nesses eventos foram para lá com uma agenda diferente da sua proposta de desenvolver o negócio, ainda que potencialmente algumas delas possam se interessar (em outra circunstância) pelo que você tem a oferecer. Se alguém lhe perguntar o que está fazendo profissionalmente, é justo e adequado despertar curiosidade para um contato potencial em outro momento, o que é bem diferente de despejar na pessoa a sua oportunidade ou produtos. Uma resposta adequada sobre a atividade seria: “Eu desenvolvo um negócio em tempo parcial para ajudar pessoas a terem seu próprio negócio como renda extra”.

Se, em alguma conversa, surgir algo que você perceba poder ajudar a pessoa com uma necessidade que possa ser atendida por algum produto que promova, é perfeitamente natural e conveniente que você faça uma breve referência a ele, o que é bem diferente de uma detalhada apresentação do mesmo.

Você não fala com um amigo há anos e encontra-o casualmente ou resolve procurá-lo. É adequado falar do seu negócio?

Parece que aqui surge uma ausência total da cortina do discernimento, infelizmente provocada por métodos (absurdos) de ligar para todos que conhece e oferecer seu incrível, espetacular, único e revolucionário negócio. Além de muito inapropriado, é fonte geradora de alta rejeição, fechando portas que, se corretamente trabalhadas, poderiam frutificar em contatos potenciais no futuro. Se você ficou longo tempo sem manter contato com o amigo, o correto é naturalmente e progressivamente restabelecer os vínculos, removendo da sua agenda seu negócio e seus produtos.

Mas se você trabalha, por exemplo, com um produto que fortaleça o sistema imunológico, e seu amigo deixa sinais claros que poderia se beneficiar com isso, o melhor seria comentar superficialmente que trabalha com um produto específico e deixar que ele lhe pergunte mais a respeito. Se ele estiver interessado, lhe fará saber.

Se você está dirigindo seu esportivo e humilha quem está na sua frente dizendo para ela tirar “sua carroça” da frente, você acha que esta pessoa lhe verá com “bons olhos”?

Desdenhar dos empregos e negócios convencionais é o cúmulo da prepotência e falta de educação. Lembre-se da pergunta acima e trate desse assunto com mais elegância e menos embriaguez. São empregos e negócios convencionais que permitiram que você tivesse sua educação ou até mesmo seu negócio de Venda Direta. Respeito é bom e todos gostam. O mesmo vale para seus colegas de trabalho e empregador, caso ainda esteja num emprego formal.

Se a pessoa está atrasada para um compromisso importante, mas está tudo engarrafado, é adequado oferecer uma carona ou recomendar que ela vá de metrô?

Apesar de ser um veículo fantástico, é importante ter o discernimento que nem sempre ele é o veículo adequado para todas as circunstâncias. Algumas pessoas irão lhe procurar desesperadas, com dívidas e ou desempregadas. Não as iluda com sua incrível oportunidade. Sabemos que leva tempo para que um negócio se consolide e que ele requer investimentos consistentes de tempo e dinheiro. Essa pessoa precisa de resultados imediatos e que, sem a devida experiência, seu negócio não poderá oferecer. Ajude-a da melhor forma que puder e ela lhe será grata. Em melhor circunstância no futuro pode ser que seu negócio seja um meio de evitar que o problema se repita.

Se é horário escolar, você pode passar em alta velocidade na frente da escola?

Claro que não. A sociedade constrói um conjunto de leis para proteger os vulneráveis, procurando ser atenta e contundente em sua execução.

Quando você oferece sua oportunidade de negócios com um discurso irregular (mentira, falácia, distorção, etc), sua proposta atinge vulnerabilidades humanas e o Ministério Público entenderá isso como um golpe de pirâmide financeira, independente da existência de produtos e o método de remuneração. Este é um negócio de distribuição em Venda Direta com remuneração em múltiplos níveis, não um negócio de recrutamento, onde o produto é desculpa para o modelo de negócios. Misturar isso é embreagar-se e passar em alta velocidade na frente da escola. Não cometa essa bobagem!